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Why Choose/ Reverse Harem por uma das suas maiores fãs, Catte Coelho
Why Choose e Reverse Harem, ou também conhecidos como “Porquê escolher”
Quem nunca se sentiu frustrado ao ler um triângulo amoroso em que ambas as opções de personagem masculino pareciam igualmente merecedoras de um final feliz… mas apenas uma era possível?
Eu senti.
Durante anos, fiz parte de uma pequena minoria de leitoras que não queria ver Bella escolher entre Edward e Jacob em Crepúsculo. O mesmo acontecia com Elena, dividida entre Damon e Stefan, em Diários do Vampiro. No entanto, como dita a estrutura tradicional do romance, a escolha foi sempre inevitável, e essa inevitabilidade deixava-me sempre com uma sensação de perda.
Creio que foi precisamente dessa frustração, partilhada por muitos leitores, que começou a surgir o questionamento:
E se a personagem principal feminina não tivesse de escolher?
Neste contexto, emergem os conceitos de why-choose (porquê escolher) e reverse harem (harém reverso).
Inicialmente encarados como simples tropes, têm vindo a afirmar-se como subgéneros do romance contemporâneo, conquistando um público crescente. Ao fazê-lo, desafiam diretamente a convenção mais enraizada da narrativa romântica: a ideia de que o amor culmina sempre numa única escolha.
Mas o que são, afinal?
Para compreendermos o why-choose, é útil começarmos pelo conceito de reverse harém (em português, “harém reverso”).
Tradicionalmente, o termo “harém” descreve uma dinâmica em que um homem mantém uma relação amorosa com várias mulheres. No caso do harém reverso, essa lógica é invertida: a narrativa centra-se numa personagem feminina que desenvolve relações amorosas com vários personagens masculinos e, que, ao contrário do que acontece no romance tradicional, não é forçada a escolher apenas um no final.
A relação constrói-se em torno dela, sendo essa a figura central da dinâmica. Regra geral, os interesses amorosos não mantêm relações românticas entre si, ainda que possam coexistir na mesma estrutura relacional e, em alguns casos, partilhar cenas em conjunto.
Apesar de muitas vezes serem usados como sinónimos, reverse harem e why-choose não são exatamente a mesma coisa.
O why-choose (ou “porquê escolher”) é mais abrangente. Parte da mesma premissa, a ausência de uma escolha final única, mas expande as possibilidades relacionais.
Isto significa que a dinâmica de relacionamento deixa de estar limitada a uma estrutura centrada na protagonista feminina com múltiplos parceiros masculinos (como acontece com o Harem Reverso) e passa a incluir diferentes configurações possíveis: relações entre personagens do mesmo género, ligações cruzadas entre vários elementos do grupo, ou até estruturas em que todos os envolvidos se relacionam entre si.
No entanto, reduzir estes subgéneros à ideia de quantidade é simplificá-los demasiado.
O why-choose e o reverse harem não são sobre o número de relações existentes entre vários membros de um harem, mas sobre a sua complexidade emocional. O mais importante não é quantas ligações existem, mas a forma como são construídas e desenvolvidas, valorizando a liberdade de escolha e a aceitação, e permitindo que as personagens não tenham de abdicar de partes de si para se encaixarem numa relação.
Mais do que uma multiplicação de vínculos, trata-se de uma ampliação das possibilidades emocionais dentro do romance. O foco deixa de estar apenas nas relações individuais e passa a centrar-se na forma como todos os elementos coexistem, evoluem e se influenciam mutuamente de forma positiva.
O resultado são histórias mais ricas, mais intensas e emocionalmente mais completas, onde o crescimento pessoal e o empoderamento das personagens surgem de forma gradual.
O crescimento inevitável
Não existe ainda uma resposta definitiva sobre o porquê do sucesso crescente destes subgéneros (para alguns, ainda tropes). Mas tudo indica que, num momento em que os leitores procuram histórias mais intensas, mais livres e emocionalmente mais ricas, eles surgem como uma resposta natural a essa procura.
Há algo profundamente apelativo na ideia de não ter de escolher entre diferentes formas de amor, de poder sentir mais em vez de apenas uma parte, de acompanhar personagens que não são reduzidas a uma única decisão. Estas histórias oferecem espaço para a complexidade — e os leitores reconhecem e, cada vez mais, ambicionam isso.
Além disso, tanto o why-choose como o reverse harem oferecem algo que muitos romances tradicionais não exploram da mesma forma: a possibilidade de diferentes pessoas preencherem diferentes partes de nós, sem que isso seja visto como uma falha.
Existe também um elemento muito forte de pertença que cativa os leitores e alimenta positivamente estas histórias: o conceito de found family (família encontrada), onde as relações vão além do par romântico e se transformam numa rede de apoio mais ampla.
Diria, portanto, que, mais do que uma tendência, estes subgéneros refletem uma mudança na forma como consumimos romance, principalmente porque já não procuramos apenas finais felizes. Procuramos finais que façam sentido, tanto para nós quanto para as personagens que acompanhamos ao longo das narrativas, com menos foco em padrões convencionais e mais foco na profundidade e complexidade emocional.
E os preconceitos?
Como qualquer género que desafia normas arcaicas e pré-estabelecidas, o why-choose e o reverse harem não escapam a críticas.
Ambos são frequentemente reduzidos a algo superficial ou exclusivamente físico. No entanto, essas concepções ignoram aquilo que verdadeiramente sustenta estas histórias: a profundidade emocional.
Sim, existem histórias destes subgéneros mais focadas no desejo sexual. Mas existem também histórias que se desenvolvem de forma orgânica e são sustentadas por plots elaborados e bem construídos, tal como acontece noutros géneros e com outras tropes.
Aquilo que não pode ser ignorado é que, para além do desejo e do conhecido ‘smut’, é comum vermos no Why-choose e Reverse harem um desenvolvimento aprofundado de personagens, dinâmicas relacionais complexas, fora da caixa e, por isso, mais interessantes; conflitos internos e externos mais densos e subplots individuais que evoluem em paralelo, sem perder profundidade e com muito maior gratificação no final.
O romance nunca foi, verdadeiramente, sobre realismo puro. Sempre foi sobre emoção, sobre ligação e sobre a forma como nos revemos nas histórias que lemos.
E, na minha opinião, o why-choose e o reverse harem não simplificam: amplificam.
Em Portugal
Apesar de ainda ser um nicho, estes subgéneros têm vindo a crescer de forma consistente entre leitores portugueses.
Muito impulsionado pelas comunidades online, pelo BookTok e pelo contacto com edições internacionais, este género começa agora a ganhar espaço no mercado nacional. A conversa existe (nas listas de desejos, nos grupos de leitura, nos comentários das redes sociais). O que faltava era mais oferta em português.
Ainda há muito por explorar. E, talvez por isso mesmo, há também muito por descobrir.
Foi precisamente nesse contexto que, este ano, a Euforia decidiu apostar de forma mais consistente em reverse harem, porque acredita que os leitores portugueses merecem histórias que não pedem desculpa por serem grandes, intensas e emocionalmente complexas.
Assim, os leitores já podem encontrar no catálogo Caro Leitor, já disponível, e Ninho de Víboras, com lançamento previsto para maio (dois títulos que refletem esta nova aposta e que prometem trazer ao público português diferentes abordagens dentro do universo dos haréns reversos, mais especificamente).
Se ainda não descobriste estas leituras, atreve-te. Costuma ser um caminho sem volta.
Catte Coelho



