
Outros artigos Euforia+:
Categorias Euforia+:
Os 5 Thrillers que definem o género para a Sandra May
Sempre ouvi dizer que ler trazia saúde, relaxamento e muita criatividade. Eu acho isso adorável. Juro! Quase comovente na verdade. Mas eu, aparentemente, leio para desenvolver problemas de confiança.
Enquanto uma parte perfeitamente equilibrada da humanidade escolhe romances leves, histórias bonitas e livros onde ninguém mantém uma mulher presa numa cave, eu gosto de passar os meus serões a tentar perceber quem matou quem, quem está a mentir e, sobretudo, por que motivo aquela personagem que parecia tão simpática na página 17 começou subitamente a fechar portas à chave!
É um hobby. Questionável? Talvez. Mas um hobby.
E quem lê thrillers conhece muito bem esta estranha felicidade de estarmos deitados, confortáveis, talvez até com uma chávena de chá na mão, enquanto alguém dentro do livro está a ser perseguido, sequestrado, manipulado ou psicologicamente destruído. E damos por nós a pensar “que maravilha, isto sim é vida. Só mais um capítulo!”.
Gosto de pensar que não somos estranhos, não estamos sozinhos e que apenas somos pessoas MUITO especiais.
Por isso, se alguém me perguntasse quais são os livros que explicam por que razão amo este género, escolheria estes cinco.
Não necessariamente porque sejam “os cinco melhores thrillers alguma vez escritos” (essa discussão acabaria provavelmente em violência e, sinceramente, já temos homicídios suficientes dentro dos livros), mas porque cada um representa aquilo que procuro quando abro um thriller. Desconforto, obsessão, dúvida, surpresa e aquela deliciosa sensação de que alguma coisa está terrivelmente errada.
Comecemos, portanto, de forma perfeitamente tranquila com mulheres sequestradas.
1. O JARDIM DAS BORBOLETAS de Dot Hutchison
Primeiro aviso: não se deixem enganar pela palavra “jardim”. Nem pelas borboletas. Isto não é jardinagem!
Não haverá aqui uma senhora simpática a podar hortênsias enquanto explica os benefícios emocionais do contacto com a natureza. Há, sim, um homem conhecido como Jardineiro. E quando um thriller tem uma personagem chamada Jardineiro, aprendemos rapidamente uma regra importante para a vida: não aceitar convites para conhecer a estufa. Nunca. Digam que têm alergias. Inventem uma consulta. Emigrem! Mas não entrem na estufa.
O Jardim das Borboletas é perturbador precisamente porque pega numa imagem associada à beleza, as borboletas, e transforma-a numa coisa profundamente inquietante. E é aí que, para mim, nasce um grande thriller. Não necessariamente no sangue. Nem no cadáver.
Nasce quando o autor pega numa coisa aparentemente segura e nos obriga a olhar novamente para ela. Quando termina o livro e alguma coisa banal deixou de ser completamente banal. Depois deste, um jardim já não é apenas um jardim.
Obrigada, Dot. Era mesmo desta ansiedade botânica que me faltava.
2. OS DESENHOS OCULTOS de Jason Rekulak
Agora imaginem que uma criança começa a desenhar. Fofo, certo? Não! Estamos num thriller. Aqui nada é fofo durante muito tempo.
Há uma altura na vida de qualquer leitor deste género em que aprendemos algumas regras básicas de sobrevivência: se uma criança desenha uma casa, tudo bem. Se desenha a família, observamos. Se começa a desenhar pessoas mortas que aparentemente nunca viu… vendemos a casa. Qual é a dúvida?
Não investigamos. Não perguntamos quem é aquela senhora de branco que não tem pés e flutua pela sala. Não! Pegamos nas malas. Levamos a criança (ou não, deixo ao vosso critério, já que ela é catalisador disto tudo) E deixamos o mistério para pessoas emocionalmente mais disponíveis.
Os Desenhos Ocultos faz uma coisa que adoro, transforma algo inocente numa ameaça. E depois começa aquele jogo maravilhoso entre leitor e autor.
“Já percebi.” Não percebeste. “Agora sim.” Também não. “Ah! Então é isto!” Jason Rekulak, algures, provavelmente a rir.
3. ROBIN COOK, escolha qualquer livro dele. Eu não consigo.
Aqui tenho um pequeno problema editorial. Era suposto escolher um livro. Mas estamos a falar de Robin Cook. Portanto, vou fazer aquilo que qualquer pessoa madura e responsável faria perante uma decisão difícil: recusar-me a decidir.
Qualquer um. Escolham um hospital. Escolham um médico. Escolham uma conspiração. E preparem-se para nunca mais entrar numa unidade de saúde com a mesma inocência.
Antes de Robin Cook, nós pensamos “Vou fazer uns exames.” Depois de Robin Cook pensamos “Porque precisa exatamente desta amostra de sangue?”, “Quem terá acesso aos resultados?”, “Esse médico trabalha aqui há quanto tempo?”, “E aquela porta ao fundo do corredor leva ONDE?”. Estão a perceber a coisa, certo?
O thriller médico tem uma vantagem absolutamente maravilhosa sobre nós: é plausível o suficiente para incomodar.
Não precisamos de casas assombradas. Temos laboratórios. Não precisamos de monstros. Temos pessoas inteligentes com acesso a tecnologia, medicamentos e decisões eticamente muito duvidosas. Muito mais tranquilizador. Obrigada.
Robin Cook ensinou-me que o medo torna-se muito mais poderoso quando conseguimos imaginar que aquilo poderia acontecer. Talvez não aconteça. Provavelmente não acontecerá. Mas agora a ideia está instalada. E boa sorte para a retirar.
4. VERITY de Colleen Hoover
Ah. Verity! O livro responsável por milhares de leitores fecharem a última página e ficarem alguns minutos a olhar para uma parede.
Verity entra no território delicioso do thriller psicológico. Onde há manipulação constante, obsessão, desejo, segredos e muita sujidade espiritual porque lemos passagens incrivelmente duras de digerir.
O que me leva a sugerir de que há manuscritos que, francamente, deveriam vir acompanhados do aviso: LER APENAS SE NÃO TIVER PLANOS PARA DORMIR EM PAZ.
5. A PACIENTE SILENCIOSA de Alex Michaelides
E finalmente chegamos ao silêncio, o que é muito curioso. Porque poucas coisas fazem tanto barulho dentro da cabeça de um leitor como uma personagem que se recusa a falar.
Este é o livro perfeito que nos transforma subitamente em investigadores criminais altamente qualificados, apesar de cinco minutos antes estarmos à procura dos óculos que tínhamos na cabeça.
Essa é a magia de A Paciente Silenciosa. Faz-nos trabalhar. Faz-nos participar. Faz-nos acreditar que estamos um passo à frente. Até percebermos que talvez estivéssemos vários atrás. E é exatamente por isso que amo thrillers. Não é pelo crime. Nem pela violência. Nem sequer pelo famoso plot twist. É porque um bom thriller mexe numa coisa profundamente humana: a nossa necessidade de compreender os outros.
Queremos saber o que escondem. Por que mentem. Até onde seriam capazes de ir e, pior, até onde iríamos nós também.
É isso que estes cinco livros fazem de maneiras completamente diferentes.
Um transforma beleza em horror.
Outro transforma inocência em suspeita.
Robin Cook transforma ciência em ameaça.
Verity transforma a verdade numa coisa perigosamente maleável.
E A Paciente Silenciosa transforma o silêncio numa arma.
Talvez seja por isso que continuo a voltar aos thrillers. Porque a vida real também está cheia de histórias onde ninguém nos entrega todas as páginas. Conhecemos pessoas por capítulos. Ouvimos versões. Interpretamos silêncios. Ignoramos pistas. Confiamos em narradores que talvez não sejam assim tão confiáveis. E passamos uma quantidade considerável da nossa existência a tentar perceber o que se passa dentro da cabeça dos outros.
Os thrillers apenas têm a delicadeza de acrescentar um cadáver. Por isso, querido leitor, deixo-vos um pequeno desafio. Olhem para a pessoa que está ao vosso lado. Sim. Essa. Parece perfeitamente normal, não parece? Pois.
É exatamente assim que começam os thrillers.
Sandra May



