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Os 5 romances que definem o género para a Catte Coelho
O romance é um dos géneros mais lidos do mundo e também um dos mais versáteis, dado que tão depressa pode fazer-nos rir, chorar, sofrer, apaixonar-nos e até questionar tudo aquilo que julgávamos saber sobre o amor.
Mas se tivéssemos de resumir o género em apenas cinco livros? Cinco histórias que, por motivos diferentes, representam aquilo que o romance pode ser?
Lançámos esse desafio à nossa autora portuguesa Catte Coelho e o resultado não é uma lista dos seus livros favoritos, mas sim cinco romances que, na sua perspetiva, a ajudaram a definir o género. Clássicos e contemporâneos, histórias felizes e outras profundamente agridoces, todas elas unidas por uma característica em comum: provar que o amor não se resume a uma única fórmula.
1. Os Maias, de Eça de Queirós
Há livros que se estudam na escola e que ansiamos por esquecer, e outros que ficam para a vida. Para mim, Os Maias pertence à segunda categoria.
Ao contrário de muitos adolescentes, nunca vivi esta leitura como uma obrigação. Muito pelo contrário. A história de Carlos da Maia e Maria Eduarda conquistou-me desde as primeiras páginas e fez nascer uma paixão que rapidamente se estendeu à escrita de Eça de Queirós.
Foi também o primeiro romance que me mostrou que a literatura existe para fazer perguntas, não apenas para dar respostas.
O relacionamento entre Carlos e Maria Eduarda continua, ainda hoje, a ser um dos temas mais polémicos da literatura portuguesa. No entanto, aquilo que mais me marcou nunca foi o choque da revelação, mas sim a reflexão que ela desperta. Até onde pode ir o amor? Qual é o seu verdadeiro limite? Existem sentimentos proibidos ou somos nós, enquanto sociedade, que definimos aquilo que pode ou não pode ser vivido?
A verdade é que ninguém escolhe por quem se apaixona. O amor surge antes da razão e da moral. Mas vivê-lo é uma escolha. E é precisamente nessa distinção que Os Maias se torna tão fascinante. Eça de Queirós mostra-nos que amar alguém e poder viver esse amor são duas realidades completamente diferentes.
A literatura oferece-nos um espaço seguro para explorar essas zonas cinzentas e compreender melhor a natureza humana sem que isso represente uma validação da realidade. É essa uma das maiores forças deste romance.
O final agridoce deixou-me profundamente desconfortável porque crescemos a acreditar que as histórias de amor existem para nos conduzir à felicidade. Eça de Queirós faz precisamente o contrário. Obriga-nos a aceitar que, por vezes, o amor não chega. Não é suficiente. Há limites que nem o mais puro dos sentimentos deve ultrapassar.
Creio que foi essa coragem de desafiar convenções e de preferir perguntas difíceis a respostas fáceis que abriu as portas para a minha paixão por histórias fora da caixa. Foi ali que percebi que um grande romance não precisa de oferecer respostas. Basta ter coragem para nos fazer pensar, sentir e questionar tudo aquilo que julgávamos saber sobre o amor.
2. A Walk to Remember, de Nicholas Sparks
Quem nunca leu um livro de Nicholas Sparks provavelmente desconhece o medo de virar a última página e ter de lidar com uma semana de depressão pós-livro e um gasto imensurável em lenços de papel.
Li A Walk to Remember numa fase em que acreditava que as grandes histórias de amor eram feitas de gestos grandiosos e finais felizes, altamente influenciada pelos romances cor-de-rosa da minha pré-adolescência. Até que chegou Nicholas Sparks e me mostrou que, por vezes, o amor mede-se pela forma como escolhemos estar presentes, mesmo quando sabemos que o tempo que temos com alguém é limitado.
Landon Carter e Jamie Sullivan ensinaram-me que o romance não se vive apenas na paixão, mas também no impacto silencioso que uma pessoa pode ter na vida da outra. Vive-se na transformação, no crescimento, na esperança e na coragem de continuar a amar quando seria mais fácil desistir ou começar o luto antes mesmo de a perda acontecer.
Foi um dos primeiros livros que me fez chorar de forma incontrolável. Mas, curiosamente, nunca associei essas lágrimas apenas à tristeza. Chorei porque a história me obrigou a confrontar uma das maiores verdades da vida: amar alguém é aceitar que nem sempre teremos o controlo sobre o tempo que nos é dado e compreender que esse mesmo tempo é, talvez, a maior dádiva que podemos oferecer e receber.
Foi também um dos romances que definiu o género para mim porque me fez perceber que uma história de amor não precisa de terminar com um “felizes para sempre” para ser inesquecível. Pelo contrário, são muitas vezes as histórias inacabadas, aquelas que nos deixam o coração partido, que melhor nos recordam a beleza e a fragilidade do amor. Nicholas Sparks ensinou-me que um romance não tem de nos deixar felizes para cumprir o seu propósito. Às vezes, basta partir-nos o coração para nos mostrar o verdadeiro significado do amor.
3. The Silver Linings Playbook, de Matthew Quick
Ao longo dos anos, o romance habituou-nos a protagonistas idealizados e à ideia de que o amor é capaz de curar tudo. Matthew Quick desconstrói completamente essa narrativa.
Pat vive com perturbação bipolar e Tiffany carrega o peso do luto, do trauma e da solidão. Nenhum deles é apresentado como um herói ou uma heroína, mas sim como duas pessoas profundamente imperfeitas a tentar reencontrar o seu lugar no mundo.
Foi um dos primeiros livros que me mostrou que a saúde mental não torna ninguém menos digno de ser amado. Pelo contrário. Ensinou-me que o amor não nasce quando estamos “curados”, mas quando encontramos alguém disposto a caminhar ao nosso lado, mesmo sabendo que haverá dias difíceis.
Aquilo que mais me marcou foi perceber que Tiffany não salva Pat, nem Pat salva Tiffany. Este romance nunca tenta vender a ideia de que uma relação resolve todos os problemas. Ambos continuam a enfrentar os seus fantasmas, a cometer erros e a tropeçar em si próprios e um no outro, enquanto o sentimento entre eles cresce de forma tão caótica quanto genuína.
É precisamente isso que torna esta história tão especial. The Silver Linings Playbook fez-me compreender que amar alguém não significa consertar aquilo que está partido, mas aceitar que todos carregamos cicatrizes. Que, por vezes, o maior ato de amor é simplesmente permanecer. No caos e no silêncio. Na saúde e na doença. Nos dias bons e, sobretudo, nos maus.
Com este livro aprendi que as melhores histórias de amor não são aquelas em que duas pessoas perfeitas se encontram, mas aquelas em que duas pessoas imperfeitas escolhem, todos os dias, continuar a caminhar lado a lado. E que, mesmo quando a vida parece desmoronar-se, vale sempre a pena procurar o silver lining: aquele pequeno raio de esperança que nos dá força para viver mais um dia e escolher, uma vez mais, o lado bom da vida.
4. Saving 6 e Redeeming 6, de Chloe Walsh
Não dá para falar apenas de um destes livros. A duologia inserida na série Boys of Tommen conta uma única história e, por isso, seria impossível separar aquilo que nunca foi pensado para existir isoladamente.
Joey Lynch é, provavelmente, uma das personagens mais humanas que alguma vez encontrei. Carrega às costas uma infância marcada pela violência, pela negligência e pela responsabilidade de cuidar dos irmãos quando nunca deveria ter sido esse o seu papel. Chloe Walsh retrata de forma crua como, para muitos jovens, os escapismos podem surgir como uma tábua de salvação e, ao mesmo tempo, tornar-se naquilo que mais os afunda.
Aoife Molloy surge como o oposto dessa tempestade. Não para salvar Joey, porque ninguém pode salvar outra pessoa, mas para lhe oferecer aquilo que ele nunca teve: um lugar seguro para regressar. Um espaço onde não precisa de fingir que está bem para ser amado.
Esta é uma das histórias de amor mais pesadas, duras e realistas com que me cruzei nos últimos anos. Muito disso deve-se à forma como Chloe Walsh retrata a Irlanda do final dos anos 90 e início dos anos 2000, uma realidade que, em muitos aspetos, acaba por ser bastante próxima da portuguesa. A emancipação precoce de muitos jovens, os contextos familiares desestruturados, a normalização do consumo de drogas e a ausência de redes de apoio criam um cenário onde crescer, por si só, já é um desafio.
Aquilo que mais me impressionou foi a honestidade com que a autora escreve o trauma. Joey não melhora porque se apaixona. Continua a cometer erros, continua a cair e continua a acreditar que não merece ser amado. E é precisamente essa falta de romantização que torna a sua jornada tão poderosa.
Ao mesmo tempo, Aoife nunca abdica de quem é para ocupar o papel de salvadora. Ama Joey profundamente, mas compreende que há batalhas que só ele pode travar. O amor existe, mas não substitui a terapia, não apaga anos de abuso nem resolve todos os problemas. Apenas oferece um porto seguro enquanto a outra pessoa encontra forças para continuar.
Foi este dueto que me fez perceber que amar alguém nem sempre significa receber aquilo de que precisamos. Muitas vezes significa ter a maturidade de oferecer ao outro aquilo de que ele precisa naquele momento, mesmo quando isso exige paciência, altruísmo e uma enorme capacidade de colocar o bem-estar da outra pessoa acima das nossas próprias expectativas. Não porque devemos carregar o peso da recuperação de alguém, mas porque o amor também se constrói através da empatia e da escolha consciente de permanecer.
Saving 6 e Redeeming 6 definiram o género para mim porque me ensinaram que um grande romance não se mede pela intensidade das declarações de amor, mas pela profundidade das escolhas que as personagens fazem uma pela outra. No fim, amar também é isto: criar um lugar onde alguém acredita, pela primeira vez, que merece ser amado.
5. Tatuado em Mim, de Samantha Young
É impossível não me rir sempre que penso neste livro. Comprei-o porque achei a capa bonita. Não fazia ideia de que estava prestes a descobrir uma história que iria mudar a forma como olhava para a intimidade dentro do romance.
Foi também neste livro que li a minha primeira cena de spice. Lembro-me perfeitamente de estar no autocarro, a caminho de Algés, completamente hot and bothered, a olhar discretamente à minha volta para garantir que ninguém estava a ler por cima do meu ombro. Foi, muito provavelmente, a primeira vez que corri o risco de corar em público por causa de um livro. Só por isso, já merecia um lugar nesta lista.
Mas aquilo que verdadeiramente ficou comigo foi perceber que a intimidade podia ser muito mais do que uma sequência de cenas provocadoras.
Durante muito tempo, fui levada a acreditar que o sexo numa história de amor era apenas um extra, algo que podia existir ou não sem alterar verdadeiramente a narrativa. Samantha Young mostrou-me precisamente o contrário.
Em Tatuado em Mim, a intimidade nunca existe apenas para provocar o leitor. Cada toque, cada beijo e cada momento de vulnerabilidade ajudam-nos a compreender melhor as personagens, os seus medos, as suas inseguranças e a forma como comunicam quando as palavras deixam de ser suficientes.
Foi um dos primeiros romances que me fez perceber que a química entre duas personagens não nasce apenas da tensão romântica. Constrói-se através da confiança, do consentimento, da vulnerabilidade e da capacidade de se mostrarem exatamente como são. Afinal, despirmo-nos emocionalmente é, muitas vezes, muito mais difícil do que despirmo-nos fisicamente.
Tatuado em Mim definiu o romance para mim porque me mostrou que a intimidade não é o oposto do amor. É, muitas vezes, a sua continuação. Quando duas personagens se despem emocionalmente uma perante a outra, o sexo deixa de ser apenas desejo e transforma-se em confiança, vulnerabilidade e entrega. Foi este livro que me fez perceber que uma cena de spice bem escrita pode revelar tanto sobre uma relação como qualquer declaração de amor.
Se hoje olho para o romance como o meu género literário de eleição, é porque estes cinco livros me ensinaram que o amor nunca é uma coisa só. Pode ser desconfortável, devastador, imperfeito, paciente ou profundamente íntimo. Pode obrigar-nos a questionar a moral, a enfrentar a perda, a aceitar as nossas cicatrizes ou a descobrir novas formas de comunicar. No fim, percebi que o romance nunca foi apenas sobre o amor. Sempre foi sobre aquilo que significa ser humano.
Catte Coelho



