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Entrevista a Liv Zander
«Se conseguirmos olhar para além de uma pústula e ainda assim ver o rosto bonito por baixo dela, talvez também consigamos olhar para além da escuridão no peito de alguém e ver um coração luminoso.»
Liv Zander tem um amor doentio por vilões sensuais. Para se curar da sua má escolha de homens, está atualmente a fazer terapia, mas quem é que tem dinheiro para isso hoje em dia? Para pagar as suas quotas, escreve romances de fantasia deliciosamente sombrios sobre homens que seriam capazes de reduzir o mundo a cinzas pelas suas mulheres. Será isso contraproducente?
Provavelmente, mas também é muito divertido.
Podem encontrá-la a procrastinar no seu escritório com uma caneca de café ou um copo de vinho (dependendo da hora do dia e de quão mal está a correr a escrita). Ah, também adora caveiras. E corvos. E caveiras.
Uma das vozes emergentes mais relevantes da dark romantasy internacional, a autora conquistou uma comunidade de leitores extremamente fiel nas redes sociais, especialmente no BookTok, tornando-se numa referência para fãs do género.
Coroa-me Morta marcou o início de vida da chancela Alquimia. Uma chancela que nos vai trazer histórias muito intensas e que prometem deixar-nos completamente de rastos. Tudo o que precisamos para combater uma vida aborrecida. O livro foi muito bem recebido pelas nossas leitoras e, por isso, a querida Liv Zander deixou-nos uma pequena entrevista.
O que te fez querer contar esta história em particular, e porque é que sentiste que era uma história que precisavas de escrever?
No início, não fazia ideia de que esta era uma história que tinha de escrever. Vi uma capa pronta que o designer tinha publicado nas redes sociais, e o título provisório dela era Crown Me Dead. Não fazia sentido. Como se coroa alguém que está morto?
Continuei a fazer scroll no ecrã, mas a pergunta não me saía da cabeça ao longo do dia. Então, a uma hora inoportuna da madrugada, acordei com a resposta: uma história entrelaçada por mistérios, mentiras e enganos que, finalmente, daria sentido àquelas três palavras. Nessa altura, não fazia ideia de onde esta duologia nos levaria, nem de que guardaria uma lição tão profunda para todos nós. Inclusive para mim.
As personagens apresentam muitos aspetos moralmente ambíguos. Como decides até onde podes levar uma personagem e, ao mesmo tempo, manter o leitor emocionalmente ligado a ela?
Ah, sweet soul, nunca houve uma única personagem que eu conseguisse controlar muito, muito menos conduzir em direção a algo ou afastar de alguma coisa. Na verdade, são eles que me empurram para situações impossíveis, arrastam-me bruscamente pelas esquinas e puxam-me, com unhas e dentes, para as profundezas mais sombrias. Acredito que a minha escrita mantém os leitores ligados não por eu controlar o que as minhas personagens fazem, mas por transmitir a razão pela qual o fazem.
A decadência do reino é incrivelmente física. A podridão afeta as pessoas, os animais, a terra e até a atmosfera da história. Porque é que foi importante para ti fazer da maldição algo que os leitores quase pudessem sentir fisicamente?
Hiperfantasia, baby, condição que me foi diagnosticada em 2022. Isto não me deixa outra escolha senão tornar os meus mundos imersivos e viscerais, simplesmente porque escrevo as minhas histórias a partir do meu interior. Não só consigo visualizar plenamente o cenário, as personagens e todo o espectro de cores, e até acompanhar cada movimento de uma cena, como também consigo sentir o cheiro da terra molhada. Consigo sentir a neblina a colar-se à minha pele. Todos os meus sentidos estão tão completamente imersos na decadência que trazer o leitor até aqui é tão simples como agarrar-lhe o braço com os dedos enlameados e puxá-lo para baixo.
O início é particularmente visceral, com tanto ênfase na decomposição, no sangue e no body horror. De onde veio a inspiração para escrever uma abertura deste tipo? És fã de terror?
Adoro terror. Odeio jump scares. E sim, a atmosfera de decadência é particularmente intensa nos primeiros capítulos de Coroa-me Morta. Mas, se prestarem atenção, veem que serve de contraponto literário para o que vem a seguir. Não vou entrar em pormenores para não dar spoilers do segundo livro, mas gostava muito de saber se os meus leitores portugueses se apercebem do significado mais profundo deste contraste!
Elara aceita seduzir Kael, tornar-se a sua rainha e, por fim, morrer para salvar o irmão. Como abordaste a criação de uma heroína cuja maior motivação é, essencialmente, a disponibilidade para se sacrificar?
Será que é algo assim tão improvável? Gerações de mulheres, a minha inclusive, foram socialmente condicionadas a sacrificar-se pelos outros. Será que não somos todas culpadas de colocar as nossas próprias necessidades, desejos e sonhos em segundo plano em relação aos dos nossos maridos? Filhos? Famílias? Não foi difícil escrever sobre a disponibilidade de Elara para se sacrificar.
Mas, se um dia conseguir escrever uma heroína que se tenha libertado destas amarras sociais, que se prioriza a si própria e partilha o que transborda com aqueles que a rodeiam, gostaria de uma ovação de pé, por favor.
Kael está literalmente a apodrecer vivo, e, no entanto, Elara sente-se atraída por ele. O que despertou o teu interesse em criar uma atração em torno de uma personagem cuja condição física é tão perturbadora?
O tema da Bela e o Monstro é tão antigo como o tempo, mas eu queria explorar a questão do que realmente torna alguém uma besta. Kael carrega a sua decadência por fora, onde todos a podem ver. Outras pessoas transportam coisas muito mais feias no seu interior. Se conseguirmos olhar para além de uma pústula e ainda assim ver o rosto bonito por baixo dela, talvez também consigamos olhar para além da escuridão no peito de alguém e ver um coração luminoso.
Vale passa grande parte da história a levar o leitor a questionar se ele é de confiança. Quando é que decidiste exatamente o quanto da verdadeira natureza dele querias que o leitor visse?
Eu queria que os leitores vissem o suficiente do Vale para questionarem o medo que sentiam dele, mas nunca o bastante para se sentirem tolos por tê-lo sentido. Quanto ao momento em que mais da sua verdadeira natureza veio ao de cima, não creio que isso tenha sido inteiramente uma escolha minha. As personagens têm o mau hábito de se revelarem apenas quando estão preparadas. Por vezes, as partes que mantêm ocultas são aquelas que eles próprios ainda não reconheceram em si mesmos. E, meu Deus… o Vale é tão desesperadamente alheio a si próprio, como veremos no segundo livro.
Gostarias de deixar uma mensagem aos teus leitores portugueses? O que podem esperar de Crown Me Yours?
Aos meus leitores portugueses: obrigado por acolherem este reino estranho e em decadência nos vossos corações. Significa mais do que consigo expressar saber que estes personagens atravessaram o oceano e vos encontraram. Há mais escuridão pela frente, mas também há ternura. Espero que me deixem guiar-vos nesta viagem e que, ao chegarmos ao outro lado, encontrem algo que valha a pena guardar. Mal posso esperar para saber o que a história significa para vocês.
Magda Filipe



