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Entrevistas

Entrevista a Catte Coelho

«A forma como lidamos com o luto sempre me fascinou. Mas o luto mais menosprezado é o luto que fazemos dos vivos.»

Catte Coelho é o pseudónimo de Catarina Custódio, uma jovem portuguesa licenciada em Comunicação, mas cujo coração sempre pertenceu à arte de contar histórias.

Com um amor insaciável por romances, pela Lua, pelos seus animais de estimação e por tudo o que é místico, é uma leitora apaixonada por dark romance, haréns reversos, fantasia, romance contemporâneo e, na verdade, qualquer história com emoção, mistério ou um toque de magia.

Quando não está a escrever ou mergulhada num livro, geralmente pinta, ouve música ou sonha de olhos abertos, deixando a imaginação vaguear.

É uma daquelas autoras que até a lista das compras nos deixa de coração nas mãos. ❤️ Fiquem com a entrevista.

Temos sido bombardeados com o entusiasmo das leitoras portuguesas que já leram o teu livro em inglês, e que agora antecipam a versão em português. Quais consideras terem sido as dificuldades de tradução e há alguma coisa diferente entre as duas edições?

Antes de mais, quero começar por dizer que saber desse “bombardeamento” por parte dos leitores me faz sentir privilegiada. Não podia estar mais grata por isso, nem pelo amor que a história tem recebido.
Agora, respondendo à tua pergunta, diria que uma das maiores dificuldades foi precisamente preservar a emoção original do texto. A história do Kaze e da Khalee nasceu em inglês. Cada momento, cada interação e cada sentimento foram pensados nessa língua. Mas a verdade é que o inglês e o português sentem-se de forma diferente, têm ritmos distintos e, por isso, quando me propus a traduzir o Bonded Beyond the Veil para Unidos além da morte, percebi rapidamente que não bastava traduzir palavras, era preciso traduzir o sentimento.
Houve, por isso, um cuidado muito grande da minha parte em manter a intensidade emocional da história, adaptando-a ao português.
Dito isto, diria que sim, há diferenças, no sentido em que a tradução não foi literal. Mas, mais do que isso, acredito que a edição portuguesa é uma versão mais lapidada da história. Mantém a mesma essência, com pequenas melhorias que tornam a narrativa mais fluida e natural para o nosso público, sem nunca alterar a intensidade emocional e o sentido da mensagem com que foi pensada.

Porquê um romance sobrenatural e porquê um personagem fantasma? 

Quando comecei a escrever, o género não foi de todo planeado. O primeiro capítulo que escrevi é o que temos agora como prólogo, que nem sequer era o prólogo original.
Apesar de o Kaze ter sido o primeiro a invadir-me a mente, foi a dor da Khalee que me cativou imediatamente, e foi por ela que comecei.
A forma como lidamos com o luto sempre me fascinou. Mas o luto mais menosprezado é o luto que fazemos dos vivos.
“Porque é que aquela pessoa deixa de responder? O que é que fizemos? Em que momento é que a “nossa” relação mudou?”
A desilusão que nasce dessas ausências, o vazio que fica, é, na sua essência, uma morte. A morte de algo que existiu e já não existe. E com essa ausência surgem perguntas que nos ferem, que criam cicatrizes e que, em muitos casos, nos moldam.
Há tanto dentro da cabeça de cada um que desconhecemos. Tantas realidades que nos escapam, mesmo quando achamos que conhecemos quem amamos e foi isso que quis retratar aqui. O quanto eles se amavam e, mesmo assim, nada sabiam um do outro.
A astrologia e o tarot deram-me ferramentas para lidar com essas dúvidas. E acho que foi muito a partir daí que procurei dar à Khalee o colo que o sobrenatural, de certa forma, também me dá a mim.
Quanto ao porquê de ele ser um “fantasma”: quantos de nós não somos fantasmas na vida de alguém?
O Kaze não é apenas um fantasma. Tal como um fantasma não é só um elemento sobrenatural. É a materialização do que ficou por dizer, do que não teve tempo de acontecer. A saudade do que ‘nunca foi’.
Quando dei por mim, a história deles já estava construída e o facto de ser ‘um romance paranormal’ acabou por ser apenas a forma que essa história encontrou através de mim para existir.

De onde surgiu a inspiração para o Kaze e a Khalee que agora vivem nos nossos corações? Qual foi mais desafiante criar?

A inspiração surgiu da música Dancing With Your Ghost, da Sasha Alex Sloan, que, já agora, recomendo que ouçam. Acho que vão sentir o prólogo de forma diferente com ela no ouvido.
Sobre quem foi mais desafiante: sem dúvida, o Kaze. À superfície, ele pode parecer leve, até divertido, mas isso é apenas uma primeira camada.
Escrever uma personagem como ele, com um passado turbulento, demónios que só ele conhecia e limitada na forma como pode existir, obrigou-me a trabalhar muito mais cada interação entre eles, cada momento partilhado e até mesmo cada silêncio.
Foi a dor da Khalee que serviu de combustível para esta história existir, mas, no final do dia, antes de ser a história de amor dos dois, é a história dele. É a jornada dele que vamos descobrindo, à medida que ele se vai lembrando do que foi, do que teve e do que perdeu.
E acho que é isso que o torna tão especial e tão amado.

Tiveste alguma surpresa no decorrer da escrita do livro? Algo que tomou um rumo inesperado?


Ahah, tive várias.
A primeira foi o capítulo da Grace, a mãe da Khalee. Esse capítulo não era suposto existir. O capítulo extra, na perspetiva da Khalee, seria o equivalente a esse momento, mas a dor dela impactou-me tanto que não o conseguia escrever. Não conseguia mesmo ver para lá das lágrimas. Por isso, acabei por precisar de uma terceira narradora, alguém envolvido, mas com alguma distância emocional, que nos pudesse contar o que estava a acontecer. E a forma como esse capítulo surgiu foi uma surpresa muito bonita. Curiosamente, é também um dos favoritos dos leitores.
Outra coisa que tomou um rumo completamente inesperado foi o arco da Mada, e isto é algo que nunca contei. Quando ela apareceu pela primeira vez na história, não era de todo a “vilã”. Muito pelo contrário, era a melhor amiga da Khalee. Mas a forma como ela se revela ao leitor foi muito semelhante à forma como se revelou a mim enquanto personagem.
E, para terminar… o final não era para ser este. Mas a minha amiga Rita apaixonou-se pelo Kaze de tal forma que me proibiu de seguir o plano original (que eu não posso dizer qual era, porque… é spoiler).

Estás a ser acusada de deixar toda a gente de coração apertado e de esgotar o stock de lencinhos. O que esperas que os leitores sintam quando fecharem a última página do livro?

Eu sei bem o que chorei a escrever este livro. As minhas beta readers também sabem (tenho a certeza de que há vídeos por aí). E também sei os vídeos que recebi quando as pessoas o começaram a ler, por isso… o stock de lencinhos é mesmo necessário, acreditem em mim. (confirmamos, caro leitor 😭)
Sobre o que espero que sintam, sinceramente, paz.
Pode ser um bocadinho ambicioso da minha parte, mas espero que esta história os ajude a curar. Que, de alguma forma, lhes dê resolução a lutos e feridas que nunca antes tiveram possibilidade de cicatrizar.
Que esta segunda oportunidade seja, para quem lê, a alternativa que a realidade não lhes permitiu ter. Porque, no fundo, foi isso que esta história foi para mim.

Não podemos deixar de perguntar quais são os livros/autores que te inspiram como escritora e como leitora.
Quem me acompanha nas redes sociais sabe que leio coisas um bocadinho… fora da caixa. Ainda assim, há duas autoras que se destacam como inspirações em campos distintos na criação desta narrativa.
A Chloe Walsh, autora de Boys of Tommen, pelo impacto emocional que os livros dela têm em mim. Foi impossível não procurar trabalhar esse tipo de emoção em Unidos Além da Morte.
E, em termos de escrita, a Nicole Fiorina. Sempre que leio algo dela, choro. A escrita é muito lírica e, por mais diferentes que sejam as histórias que constrói, é na forma como escreve que me sinto em casa.
Se nunca leram nada dela, podem começar pela trilogia Stay With Me. Acabou comigo… e tenho a sensação de que também pode acabar com vocês.

 

Magda Filipe

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