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Entrevistas

Entrevista a Inês Valadas, the.darkromancequeen

«(…) existem coisas sobre as quais só podemos escrever quando elas deixam de doer.»

Inês Valadas nasceu no Alentejo, em Évora, em 1993. 

A literatura foi uma presença permanente na sua vida desde tenra idade, tendo começado a escrever com 13 anos. Concluiu a licenciatura em Línguas, Literatura e Cultura e repete muitas vezes que foi a literatura que a salvou, e continua a salvar. 

Em 2023, aventurou-se como criadora de conteúdo literário, tendo criado uma comunidade de leitores de dark romance em Portugal, que mantém até hoje, e que a tornou a cara do subgénero. 

Inês gosta de histórias intensas que arranquem lágrimas e fiquem a ressoar nos leitores. 

Estreia-se como autora com o primeiro dark romance nacional a chegar às livrarias, um livro que promete misturar a faceta sombria do subgénero com uma escrita mais poética e sensível. 

Atualmente, vive com o namorado e a filha na sua cidade natal. 

Onze Minutos chega às livrarias a 2 de Junho e podem marcar presença no evento de lançamento que se vai realizar na Feira do Livro de Lisboa, dia 7 às 15H, na praça vermelha. Até lá, fiquem com a entrevista:

O teu livro tem sido uma loucura. Muito antes de sequer estar acabado. De onde veio esta vontade de escrever um livro e quando surgiram as primeiras linhas do Onze Minutos?

Para mim estas são duas perguntas distintas porque a vontade de escrever um livro é uma coisa que surgiu muito antes do Onze Minutos. Eu queria escrever um livro desde que tenho 17 anos. Desde que me conheço como pessoa que escrevo e que sonhava escrever um livro. Tenho cadernos e cadernos cheios de poemas e pequenos textos, mas há algo de incontornável para mim que é: reconhecer que agora é que eu tenho a maturidade para o fazer. Acho que é necessário um quê de maturidade emocional para conseguir escrever uma história e confiar nela sem garantias nenhumas.

As primeiras linhas do Onze Minutos surgiram quase como um desabafo. Eu acabei de ler a trilogia Abismo da Escuridão da Leigh Rivers, uma trilogia que alterou a química do meu cérebro, e a voz de escritora que eu não ouvi há anos começou a soar de uma forma que não foi possível ignorar. O Onze Minutos, no entanto, ainda não tinha qualquer nome e eu estava convencida que ficaria na gaveta.

Aparentemente o universo tinha outros planos. 🙂

O OM é o primeiro dark romance português e claro que só podia ser escrito pela rainha do dark romance em Portugal. Sentes uma grande responsabilidade por seres uma representação tão forte do género? Que desafios te trouxe como escritora?

A responsabilidade da posição em que estou foi uma coisa que me assombrou desde o início. Não diria desde o início da escrita do Onze Minutos porque quando as primeiras linhas surgiram eu achava que ele ia ficar guardado na gaveta, mas talvez desde que a comunidade descobriu que eu ia lançar um dark romance.

Ainda me assombra, para ser sincera. Todo o processo de criação do Onze Minutos foi também um processo de aprender a confiar em mim e não deixar o meu síndrome de impostor vencer. A cada palavra, a cada capítulo, a cada escolha…ele estava lá. Em certos momentos ainda está.

É estranho para mim e eu não consigo nunca explicar a 100% porque mesmo que eu leia e releia o que escrevo e pense “Uau, fui eu que escrevi isto?!” existe logo em seguida um pensamento em cadeia de “Será que isto é o suficiente? Será que as pessoas vão ver a alma que coloco nas palavras?”. Este foi o maior desafio: aprender a confiar que eu era capaz e não ouvir o meu síndrome de impostor. Que tinha talento. Que o coração continuava no lugar certo porque estava a escrever o Onze Minutos com amor, a colocar tudo o que tenho naquelas duas personagens que eu espero que ressoem nos leitores.

Por outro lado, o chamado “hype” com que o Onze Minutos está continua a deixar-me muito nervosa. Todos os dias há, na minha cabeça, o loop criado pelo medo de não corresponder às expectativas de quem está tão ansioso por me ler.

Os teus bebés estão quase a ver a luz do dia e a passar a ser os NOSSOS bebés. Como surgiram a Laurell e o Adrian? Sempre soubeste que esta seria a história deles?

A história do Adrian e da Laurell…eu acho que viveu em mim desde sempre. Só a aguardar que eu estivesse disposta a escrevê-la. Dizem que há coisas das quais só podemos falar quando elas deixam de doer. A minha versão dessa frase é: existem coisas sobre as quais só podemos escrever quando elas deixam de doer. E para mim foi um pouco isso: eles surgiram como vocês os vão conhecer quando eu me senti pronta.

Eu queria escrever sobre o amor e a forma como ele nos pode salvar. Queria deixar um bocadinho da esperança nessa mesma verdade, que eu fui obrigada a procurar durante imenso tempo, para quem ainda procura como eu. Para quem ainda sente que não há salvação eu queria dizer: há. Porque eu estou aqui e se eu estou aqui é porque há salvação. Mas antes de escrever sobre isso tudo eu precisei de me salvar a mim mesma e de me permitir acreditar que foi também o amor que me ajudou a fazê-lo. Foi nesse momento, no momento em que eu senti finalmente isso, que os meus bebés surgiram. Muito eles, mas também muito parte de mim. (esta autora nem em entrevista nos dá descanso 😭)

Apesar do dark romance ser considerado por muitos literatura de baixa qualidade, tu entregas-nos uma escrita muito cuidada e com uma vertente lírica. Porque é que assim é, quem são as tuas maiores inspirações para esta forma de escrita?

Eu diria que é assim, primeiramente, porque eu estudei  autores que têm uma forma muito lírica de escrever. Na base de quem sou como leitora – e isto pode ser um choque – estão autores como Milan Kundera, José Luís Peixoto, Herberto Hélder, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe que têm muito desta vertente lírica na sua escrita. Mas mais do que isto: esta sempre foi a minha voz enquanto escritora. Mesmo quando escrevia as composições que os professores me pediam quando eu tinha dezasseis e dezassete anos, a minha voz já era assim. Foi sempre parte de mim e eu não consigo escrever de outra forma. Um dos maiores desafios da escrita do Onze Minutos foi escrever a ação e não me perder nesta particularidade poética que está presente na esfera íntima das personagens.

Se ao início me preocupou a receção que poderia ter este género de escrita num dark romance neste momento eu estou mais tranquila. A aceitação dos leitores do que já foi publicado deixa-me muito feliz e expectante.

Daqui a umas semanas vamos ter o lançamento oficial do Onze Minutos na Feira do Livro de Lisboa. O que os leitores presentes podem esperar deste momento de partilha contigo? Tens mais confirmações de eventos futuros onde te podem encontrar?

Os leitores podem esperar uma Inês super emocionada e provavelmente que vai ter dificuldade em articular palavras para além do choro … 🙂 Estou a brincar (um bocadinho).

O lançamento do OM é, para mim, um dos momentos mais importantes da minha vida. É um dos momentos que me fazem sentir que eu fiquei viva para ver isto acontecer. E eu quero muito partilhar isso com toda a gente que todos os dias me tem celebrado porque isto está a acontecer porque eles também me deram sempre a mão. A minha comunidade é a melhor comunidade que existe. Ela sempre me apoiou, encorajou e celebrou. E eu tenho um amor por ela que eu acho que é muito difícil explicar.

Nós somos muitos mas eu conheço cada um deles. Portanto eu tenho a certeza que eles vão estar lá para me amparar e me ajudar a manter os pés no chão.

Esperem abraços, gargalhadas e uma autora que quer ouvir cada pessoa que estiver lá por ela.

Para além disso poderão encontrar-me nas discussões presenciais de alguns clubes de leitura, ainda em Junho, que as criadoras dos próprios clubes revelarão e eu penso que poderá existir por aí a possibilidade de uma “tour”. Têm que ficar atentos! (Contamos com TODOS porque vai ser um momento muito bonito!)

E por falar no futuro… o que nos podes contar sobre projetos futuros?

Obviamente temos em vista o final da história do Adrian e da Laurell. O segundo livro do dueto já está a ser escrito e eu estou a tentar que ele chegue aos leitores da forma mais rápida possível mantendo, claro, a qualidade que a história deles os dois merece.

Para além disso a vida é um bocadinho uma incógnita. Sei que os leitores vão colocar a minha cabeça a prémio se eu não tentar dar-lhes um livro do Ethan e da Cass mas ainda não há planos concretos nesse sentido.

Há também umas ideias meio loucas que a minha cabeça tem por vezes – que gostava de experimentar escrever um small town com found family e coisas do género – mas quem sabe? Neste momento estou só a tentar sobreviver ao mundo do Onze Minutos e a aproveitar a onda.

Que mensagem queres deixar ao teu MEGA clube de fãs que espera ansiosamente pelo dia do lançamento?

Eu quero dizer-lhes uma coisa acima de tudo: obrigada por não desistirem de mim.

Saibam que o Onze Minutos pertence-vos tanto quanto a mim mesma e que a cada passo que dei no sentido dele vos chegar às mãos foram as inúmeras partilhas e o entusiasmo que me passavam que me mantiveram à tona da água.

O processo foi longo e doloroso mas eu guardo cada um de vocês que me apoiou e me ouviu quando eu mais precisava.

Obrigada por não desistirem de mim!

 

Magda Filipe

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