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Caro leitor, daqui fala Serena Humble…
Não sei quem vai encontrar isto. E, sinceramente, não sei se isso me tranquiliza ou me assusta ainda mais. Há sempre duas hipóteses: ou és exatamente a pessoa que eu preciso… ou és mais um erro que vai atrasar tudo. E eu já não tenho tempo para erros.
Se chegaste até aqui, então já sentiste alguma coisa fora do sítio. Não tentes negar. Há sempre um primeiro, pequeno e quase elegante desvio.
Foi assim que ela desapareceu.
Pelo menos, foi o que me contaram.
A Donna não se pode ter perdido de repente. Não houve um grito, nem um adeus dramático como nos filmes que as pessoas usam para se convencer de que entendem a dor. Foi… um deslizamento? Sim, um deslizamento, como se a realidade dela tivesse começado a inclinar ligeiramente e eu me alimentasse disso.
Sabes o que é ver alguém a desaparecer à tua frente sem que mais ninguém note? É como tentar explicar uma sombra a quem só acredita em luz. Contaram-me que a Donna é só escuridão, que começou a mudar nos detalhes. Pequenos erros na forma como dizia certas palavras. Silêncios demasiado longos antes de responder. Olhares que não pousavam em ninguém, mas que atravessavam paredes. Como se nada fosse capaz de a segurar. Ela não se encolheu. Expandiu-se.
Agora sei disso. Porque só eu e Deus sabemos o quanto eu gostaria que ela me olhasse e visse a versão em que me tornei. Eu tentei puxá-la para mim, mesmo sem a conhecer. Deus sabe o quanto eu tentei.
Imaginei como ela seria. Como soaria a voz dela dentro da minha cabeça quando me dirigisse a palavra. Pintei, dentro de mim, o toque que daria na sua pele e chamei-a pelo nome, gritando para a almofada até ele deixar de soar real na minha própria boca. E havia um momento, apenas um momento, em que eu tinha a certeza de que a Donna estava a olhar para mim. E depois… desaparecia. Não desaparecia de forma limpa. Isso teria sido misericordioso. Ela ficou mas não ficou. Ficou dentro de mim.
Diz-me, se alguém continua a respirar, a andar, a falar… mas já não é a mesma pessoa, como é que se chama isso? Não respondas rápido. As respostas fáceis são perigosas.
Preciso que prestes atenção ao que te vou dizer agora, porque pode ser a única forma de a encontrares por mim.
A Donna ainda está aqui. Eu sinto. Eu sinto-a em mim.
Ela deixou sinais. Ou talvez tenha sido forçada a deixá-los, não sei ainda. Mas estão aí, escondidos em coisas que parecem banais demais para serem importantes: mudanças de padrão, repetições, frases que parecem normais até serem ditas no momento errado. Presta atenção a isso, está bem? Especialmente ao que se repete três vezes. Sempre três. Não ignores.
E há mais uma coisa, isto é importante: se encontrares algo que te faça pensar nela, não confies imediatamente. Dizem que a Donna sempre foi inteligente. Demasiado. Se alguém a está a manter onde ela está, então também sabe como usar isso contra quem a procura. Incluindo contra ti. Incluindo contra mim.
Às vezes pergunto-me se esta carta já não foi escrita antes. Se já não passou por outras mãos. Se alguém tentou… e falhou. Ou pior, se alguém encontrou a Donna e decidiu não a trazer de volta.
Tu serias capaz disso? Não respondas. Eu sei que ainda achas que não. Todos acham. Todos dizem que sou complexa, que não o matei, que estou presa neste lugar e que não me compreendem. Mas só não compreendem até ao momento em que percebem o que está realmente em jogo.
Se decidires ignorar isto, fecha a carta, respira fundo e volta à tua vida. Talvez ainda vás a tempo de não reparar em mais nada.
Mas se continuares… se escolheres mesmo continuar… então não a procures como quem procura uma pessoa. Procura como quem tenta provar que algo ainda existe.
E quando, não se, QUANDO encontrares a Donna, não confies na primeira versão dela que aparecer. Sinto que já cometi esse erro. Não repitas. Por favor.
Se estiveres a ler isto e sentires que algo em ti mudou, mesmo que seja só um milímetro, então já estás mais dentro do que devias. Mas também és exatamente quem eu preciso.
Encontra-a. Antes que ela desapareça de vez. Ou antes que eu deixe de saber quem eu sou.
Serena Humble
Sandra May



